O Castigo

Narrativa recolhida em I981, narrada por uma camponesa, localidade de Mopeia, Zambézia.

Por Lourenço de Rosário

VALLEE DE L'OMO, PEINTURES CORPORELLES, TRIBUS SURMA ET MURSI

 

Certa vez, há muito tempo, antes mesmo das avós dos nossos avós terem nascido, houve uma grande cheia no rio. Até hoje, nunca mais houve uma cheia semelhante. Nessa altura, antes de as águas terem subido, os homens. Como era seu hábito todos os anos, fixaram-se nas ilhas. Uns Pescavam. outros trabalhavam noutras coisas, como consertar redes. Os homens desse tempo só iam à Beira Para casar, no regresso, e não tornavam lá.

O rio encheu e surpreendeu todos os homens nas ilhas. O rio encheu de noite. E os homens morreram todos.

As mulheres ficaram sem um único homem. Elas passaram a realizar rodos os trabalhos. Faziam o que lhes pertencia e o que pertencia aos homens. Mas não podiam fazer filhos. E começaram a envelhecer e a morrer. Fazer filhos é trabalho do homem, a mulher sozinha nada pode fazer. E por isso estavam a desaparecer.

Andavam todas muito tristes.

Um dia, passaram por aquela povoação dois irmãos que viviam nas povoações do outro lado do rio, Esses irmãos vinham da Beira. O rio estava cheio. Os dois irmãos não podiam atravessar. Eles ficaram acampados e comiam peixe. Todos os dias comiam peixe, peixe, peixe. Já não podiam comer mais peixe. Então, resolveram ir procurar alguma machamba de milho. Encontraram uma, perto de uma povoação. Essa povoação era onde viviam as mulheres. Os dois irmãos começaram a roubar milho. Mas, de repente, caíram numa cova funda. Essa cova era uma armadilha feita pelas mulheres.

Passado algum tempo chegaram as mulheres. Os dois irmãos nem tiveram tempo de tentar a fuga. As mulheres chegaram. Eles pensaram que iam morrer. Olharam Para a cara das mulheres, e elas estavam com caras muito ferozes, “Pronto, vamos morrer aqui, chegou o nosso dia”, disseram os irmãos.

As mulheres falaram, falaram entre si em voz baixa. Algumas vieram retirar os dois irmãos e a chefe disse: “hoje vamos fazer uma grande festa. Todos vão apresentar o melhor cabanga (Cerveja). A noite será de dança.” E os homens pensaram que era para festejar o seu fim

No dia seguinte, depois da festa, disse a chefe: “as que querem que estes homens sejam mortos, que passem para o meu lado esquerdo”. Nenhuma mulher passou. Uma velha disse: “Minha filha, estou muito velha, mas dou-vos um conselho. Se quereis que a nossa aldeia retorne aos bons tempos passados, aproveitai estes prisioneiros.” A chefe compreendeu o que a velha queria dizer e decidiu, «pronto, o vosso castigo vai ser o seguinte: cada uma de nós vai passar uma noite com cada um dos dois. Dormiremos com eles uma por noite. E, daqui a três anos, todos nós teremos dormido pelo menos uma vez com estes prisioneiros».

Passados três anos, a povoação tinha muitas crianças, rapazes e raparigas, todos eles eram irmãos. A chefe disse: «O vosso castigo terminou». Um dos irmãos disse: «Eu não fico aqui, a minha gente espera por mim» e partiu para junto dos seus familiares que viviam do outro lado do rio. O outro, porém, disse: «Eu não vou partir, a minha gente agora é estar.» E ficou na povoação com todas aquelas mulheres, e fez mais filhos.

É por isso que até hoje cada homem arranja sempre muitas mulheres. Foram as próprias mulheres que castigaram os homens, para que eles lhes fizessem filhos.